Quando o convite foi feito, o idealizador do evento sabia muito bem o que queria:
– Eu quero que as pessoas falem, perguntem, tirem suas dúvidas sobre ansiedade, disse ele ao telefone.
– Ótimo. Gosto quando os momentos são interativos. Podemos fazer mais, inclusive. Para os que desejarem, vamos criar um momento de relato de experiências, respondi entusiasmado à proposta.
– Ele continuou: as pessoas estão se sentindo cansadas e estão ficando doentes. Estou precisando de auxílio para compreender junto com elas um pouco mais sobre como conviver melhorar esse cenário.
Restavam ainda cerca de 20 dias para o momento acontecer. Até lá foram muitos diálogos para ampliar a compreensão sobre a realidade em que estavam expostos e poder auxiliar de forma mais satisfatória. Todas as conversas demonstravam alguém que realmente desejava ajudar a sua equipe de trabalho. A demanda era, evidentemente, saúde mental.
Sucintamente, tem saúde mental aquele que possui um grau satisfatório de bem estar associado com a autonomia comportamental diante dos desafios diários. Ou seja, mesmo diante de dificuldades, a pessoa consegue, por conta própria, construir suas decisões, mantendo um grau de contentamento pessoal sem culpabilização.
Hoje, embora ainda exista um grande caminho a percorrer, especialistas tem conseguido mais espaço para apresentar sua ciência sobre os comportamentos das pessoas a partir de uma perspectiva psicológica. A interação entre a dinâmica do cotidiano, os mecanismos psíquicos de interpretação desses cenários quando associados à predisposição genética dos sujeitos tem sido estudada como causa de quadros de ansiedade na população que cresce sem distinção de faixa etária e classe social.
Entender as fases que desencadeiam a sintomatologia da ansiedade e nutrir as pessoas acerca da possibilidade de melhorias no modo de viver é o foco. E tudo começa pelo compartilhamento do conhecimento.
A ansiedade precisa ser entendida como algo natural no processo de desenvolvimento humano, contudo há variáveis que denotam um quadro patológico. Como, então, diferenciar a ansiedade natural do ser humano com aquela entidade como doença?
Essa pergunta foi o foco da palestra. Voltemos a ela.
Cheguei à empresa cerca de 40 minutos antes do início programado. Quando começou, conceituei alguns sintomas e criei relação entre o que se sente e as possibilidades de causa, abrindo espaço para a diferenciação do básico e do complexo.
Expliquei que ficar ansioso quando está chegando a hora do encontro com alguém que se ama, vivenciar calafrios e mãos suadas, que logo mais passarão, é um patamar de sintomas. Já outro nível de compreensão é quando a ansiedade desorganiza a vida do indivíduo e gera um sofrimento excessivo, fazendo os envolvidos terem prejuízos em diversas esferas. Tudo isso sem falar em situações nas quais o transtorno de ansiedade divide espaço com outras enfermidades como a depressão, por exemplo.
Nesse momento, expliquei que a sintomatologia da depressão, embora esteja difundida no senso comum, trata-se de uma enfermidade complexa e que é preciso existir uma combinação de fatores para iniciarmos um processo de análise nessa perspectiva.
Foi exatamente nesse momento em que uma senhora rapidamente levantou a mão e indagou:
– Como assim são necessários vários fatores? Eu, por exemplo, tenho depressão porque não consigo dormir. Por isso, tomo remédio.
Analisei rapidamente a frase dela e, com as poucas informações que possuía, solicitei que ela ficasse ao final para conversarmos. Mas reforcei: Sim, depressão é uma doença gerada por vários fatores.
No final, ela se aproximou e relatou seu caso. Era uma senhora confusa, não devido a enfermidade, mas pela falta de informação, simplesmente. Intervi.
– Baseado no que a senhora relatou, me responda: quem disse que sua doença é a depressão?
– Mas tomo remédio, ela disse.
– Continuei: Entendo. Deixe-me explicar. Para se diagnosticar um quadro depressivo é necessário evidenciar vários sintomas associados. Caso não exista esse cenário, o sintoma deve ser tratado de forma específica e diagnosticado como específico e não como depressão. Pelos documentos que a senhora me apresentou, sua doença é essa que está escrita: Transtorno de sono. A medicação é para desenvolver o equilíbrio ao seu corpo por meio do restabelecimento do descanso.
Pedi para ela voltar ao seu profissional de saúde e solicitar detalhamento do que possuía. Ao final, se fosse do seu desejo, solicitei que me ligasse e me desse um retorno.
É possível viver uma doença que não existe no seu corpo? Sim.
Em um mundo ansioso e com facilidade de informações, as pessoas pesquisam, leem e se autodiagnosticam. Os males podem ser os mais variados ao ponto de criar um cenário para que uma doença que não existe na realidade passe a conviver fantasiosamente comigo, podendo desencadear efeitos psicossomáticos.
Depois de algumas semanas, o telefone tocou. Atendi.

– Eu não tenho depressão. Eu só tenho insônia. Disse a mulher, agora eufórica do outro lado da linha.
– Parabéns, você foi libertada pelo conhecimento. Foi minha resposta.
Tenho certeza de que aquela senhora tem vivido noites menos ansiosas desde aquele dia.
QUE MARAVILHA!!!