A redução da maioridade penal

Era perto, mas estava quente. A temperatura dispensava o paletó. Estirei a mão e ele veio. Educado, informado e alarmado, o taxista me apresentou os principais fatos recentes da capital do Brasil. Afinal, só eles e os cabeleireiros possuem um arquivo de assuntos variados como nenhum outro profissional.

Embasado, parecia ser dele o furo de reportagem quanto aos subornos e as desordens daquelas bandas que contribuem para a falta de ordem e de progresso da nação. Mas dentre as informações do dia, teve uma que me chamou a atenção: a morte de um motorista de ônibus por um adolescente. Fiz com que entendesse que eu gostaria que detalhasse somente essa notícia. Ele entendeu e relatou com muita indignação o fato.

“Foi um adolescente”, disse com muita raiva. “O motorista estava trabalhando pra levar o sustento para a sua casa. E agora? Quem irá alimentar a família. Ele deixou a esposa com duas crianças. Alguém tem de fazer alguma coisa com esse adolescente! E ainda tem gente que defende esses ‘de menores’. Todos os taxistas são a favor de eles serem presos e morrer na cadeia.” Toda generalização é grave, mas fixei em mim essa frase: todos os taxistas são a favor.

A raiva com que o motorista falava me chamou a atenção e entendi perfeitamente o momento. Afinal, era um parceiro de trabalho e, com certeza via naquela situação preocupação com sua atividade. Quando pensei que iria concluir, ele começou a repetir as mesmas frases com ainda mais furor. Foi neste instante que comecei a interagir buscando a reflexão daquele trabalhador.

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Ele continuou: Quem irá sustentar a família?
Eu concordei: É verdade. Quem vai sustentar?
Ele: O assassino merece cadeia!
Eu: Ele merece cadeia (minha voz repetia a entonação dele)
Ele: O cara deixou duas crianças para sustentar. E agora?
Eu: E agora, ficaram duas crianças sem o pai. Quem vai sustentar?

Eu continuei: E é possível que essas duas crianças desamparadas não tenham uma boa educação. É possível que elas, por não terem educação, estejam mais vulneráveis ao uso de drogas e companhias que a farão se distanciar de uma boa conduta cidadã.

O motorista me ouvia atentamente com ar de concordância. Continuei: É possível que sua mãe não consiga contornar toda essa situação devido as grandes carências que a cercam e eles iniciem uma vida de criminalidade como opção para prover suas necessidades. É possível que os filhos desse motorista assassinado cheguem a assassinar algum motorista de ônibus ou mesmo um taxista e as pessoas desejem o encarceramento mais penoso possível para eles.

Ele me interrompeu: Mas essa história é diferente. Se eles não tiveram educação será preciso analisar. No mesmo tom dele, retruquei: Mas analisar o que? Nesta história, eles são assassinos.

Nesta hora, o motorista entendeu a minha reflexão. Conclui dizendo que é necessário escolher o ponto da história que se quer contar a narrativa. Geralmente, quando não contamos do início, corremos o risco de deixar uma parte muito importante para trás, amontoando injustiças sobre injustiças, não contribuindo com a solução, mas apenas ganhando sensação de resolução enquanto o cerne do problema continuará intacto promovendo ainda mais caos. Desejei que ele e “todos os taxistas” repensassem sobre o posicionamento frente aquela situação e analisassem se de fato a história deveria ser contada a partir do momento em que aquele adolescente entrou no ônibus ou se antes, bem antes de ele desejar estar com uma arma na mão. Agradeci a companhia, paguei a corrida e fui para o meu compromisso.

Nada substituirá o pai morto no ônibus. Essa história não está sendo amenizada neste texto. O adolescente agressor deve ser chamado ao fórum competente e ser julgado pelo ato. Mas propomos que a história não se registre como um Estado punitivo com ardor, mas justo em suas obrigações constitucionais. A história das pessoas precisa ser levada em consideração e que a omissão da Sociedade não se torne equivalente a ausência do Estado em prover a educação, a saúde e o trabalho digno para cada cidadão.

Se possível, não só os taxistas, mas também os psicólogos, os administradores, os farmacêuticos, os feirantes, os engenheiros e inclusive, com grande respeito neste texto, os motoristas de ônibus sejam levados à reflexão para sermos protagonistas do desenvolvimento de um contexto que irá além de um slogan político e que mudará a história do nosso Brasil: educação para todos.

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