A presença da culpa

O Analista chegou 15 minutos antes e ela já o aguardava. Sua presença era percebida facilmente. Ele pediu alguns instantes para organizar a sala. Quando entrou, iniciou-se um pequeno diálogo de boas vindas. Depois, ela começou a falar:

– Eu sou um peso. Sou um fardo, disse a Culpa com voz embargada.

– Vou precisar que você detalhe um pouco mais. Comece explicando quão forte é esse peso e esse fardo, disse o Analista.

 

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Na clínica há muitas vozes. Às vezes, o sujeito fala. Às vezes, os outros. Às vezes, a culpa. É preciso diferenciar. Tanto é importante a abordagem das causas das questões, como o é entender, prioritariamente em contextos mais graves, o papel da culpa já instalada e o quanto tem interagido com outros fatores da vida do indivíduo tornando-se geradora de outros quadros sintomáticos.

A voz da culpa é devastadora. Ela invade nossos conceitos e altera as percepções. Parece nossa, mas pode não ser. Parece que domamos, mas ela é quem direciona e isso é evidente quando agimos ou deixamos de agir baseado na interpretação de culpabilização dos demais. A culpa pode ser interpreta por alguns como individual, mas muitas demandas clínicas nascem nas relações culturais que organizam seus sistemas, ou seja, nas relações com o outro. É a interpretação da empresa, dos pais, do conjunge e do amigo que nos causa incômodo. Há culpas que não deveriam ser nossas, mas dos outros já que são eles que as criam em nós. Mas não.

Ressalvados os aspectos de interpretação da culpa advindos pelos tramites constitucionais democráticos que responsabilizam os indivíduos acerca do descumprimento do estipulado, o que se pretende é gerar uma reflexão sobre os aspectos culturais. É diferente o que sente culpa por ter a prática do assalto, criminalizado em lei, daquele alguém que sente culpa por não corresponder aos anseios culturais de determinado grupo. Enquanto o primeiro precisa da intervenção do Estado devido descumprimento da letra, no outro o que existe são relações sociais construídas que ao serem alteradas geram a culpa.

Não se desconsidera os acordos culturais (aqueles que não estão escritos em lei) neste parecer, porém o que se diz criado na subjetiva do coletivo também é o que está sujeito as interpretações subjetivas de cada um. Por isso, ao invés da gestação da culpa, as pessoas deveriam estar livres em sua subjetividade. Nessa interação com o social, as pessoas precisam possibilitar a existência do diferente. Embora possa existir discordância, a garantia de que o que pensa de outra maneira possa viver é condição essencial para minimização da culpa na vida das pessoas. Todo ambiente que se julgar digno de culpar deve se responsabilizar pela saúde e liberdade dos ditos culpados, possibilitando caminhos, seja o de reparação nos tramites constitucionais ou o de aceitação nos acordos sociais.

– Esse problema não tem solução. Vou embora, disse a Culpa.

– Fique mais um pouco. Você precisa de mais um tempo para refletir sobre a liberdade que deseja, falou o profissional. Ela aceitou e a sessão continuou.

O sentimento de culpa aniquila a diversidade, pois os julgados culpados são intimados à uniformidade, ao padrão, àquilo que supostamente deveria ser, etc. Ambientes que insistem em nos carimbar como culpados não são lugares sadios à mente, pois nos impõem pesos desnecessários ao dia-dia.

As empresas precisam encontrar o equilíbrio entre a responsabilização pelo erro e pelo acerto. A proporção de feedback entre o que faço bem feito e aquilo que precisa ser melhorado tem de existir para que as pessoas não assumam identidades e nem sejam apontadas, a partir de situações isoladas, com perfis que, historicamente, possam não ser verdadeiros. Os grupos sociais que conseguem unir pessoas precisam se ater aos difíceis quadros sociais que demandam um enorme esforço da população e auxiliarem no processo de liberdade desses sujeitos tornando-os capazes de promover uma cidadania digna e responsável para com o coletivo ao invés de imputarem acordos sociais que, para além da rotina cansativa imposta pelos sistemas subdesenvolvidos, ainda trazem mais pesos em forma de culpa. Os grupos sociais precisam respeitar o diferente e fugir do protecionismo que segrega e torna o outro “não apto”.

Insistem em chamar essas reflexões de comportamento politicamente correto. A clínica chama de respeito e garantia de escolha individual. Se há culpa, os processos precisam ser adequados para que as pessoas a superem por meio de novas oportunidades, legítimas e alcançáveis, levando em consideração o cenário individual e coletivo sempre primando pela saúde e liberdade das pessoas.

– Então quer dizer que a culpa que sinto pode ser uma imposição cultural e que é possível viver sem esse peso? Ecoou a voz do Cliente.

– Sim. Você pode, respondeu.

Agora não era a Culpa que estava falando, mas a voz do Cliente. O Analista já não estava falando diretamente à culpa, mas com o sujeito que se compreendia para além dos medos e das angústias que o trouxera, inicialmente. Foi quando o profissional disse:

– Agora, a sessão acabou.

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