Janelas

Em casa, gosto da minha mesa de trabalho próxima da janela. De um dos lados fico eu monitorando status dos trabalhos, redigindo textos e corrigindo testes. Do outro lado estará a chuva ou o sol, o frio ou o calor, pessoas andando lá em baixo e pássaros voando lá em cima. Gosto de tudo que vejo, principalmente das aves.

Dias atrás, um pássaro com cores bem diferentes estava saltitante em cima do prédio vizinho. O acompanhei pela minha janela. Ele continuava saltando e saiu da minha visão. Então, precisei ir para a janela do quarto para acompanhar suas andanças, mas não consegui mais o enxergar. Percebi que o que eu enxergo em uma janela é diferente da visão que está disponível na outra, mesmo que elas estejam próximas.

As nossas visões de mundo também dependem de qual janela nos dedicamos a olhar. Há pessoas que foram convencidas por algumas teorias e outras defendem diferentes linhas de pensamentos. Cada um tem a sua janela que é o seu modo de ver, pensar e agir. Alguns vivem bem próximos das vidraças, outros ficam mais distantes, mas todos, alguns por decisão própria e outros direcionados, estão decidindo sobre sua vida a partir de uma forma de discernir o mundo a sua volta. Por essas formas de enxergar a vida, desenvolvemos nossos esforços, planos, convicções e emitimos nossas opiniões.

Deveria ser natural entender que algumas situações são enxergadas com mais detalhes a partir de algumas janelas. Inclusive há janelas nas quais jamais se enxergará aquela situação porque o ângulo não favorece ou a teoria não alcançou esse entendimento e isso não quer dizer que essa ou aquela forma de pensar não exista, mas que apenas daquela janela onde estou não se consegue ver. É preciso entender que pode existir um mundo que a minha janela não consegue alcançar.

 

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Não poucas vezes, as demandas de clientes em análise no consultório estão relacionadas a limitações de suas opções de escolha seja por questões culturais ou de outra natureza. Aparentemente, quando a demanda é de relacionamento há uma pessoa olhando o assunto de uma janela enquanto a outra está vendo a situação de outro lugar. É como se alguém estivesse olhando pela janela do quarto e vendo várias opções enquanto outras pessoas estão observando a partir da janela da sala e vendo, ou não, outras possibilidades. Algumas pessoas que não conseguem enxergar aquela visão a partir de sua janela costumam negar a sua existência e exigem ainda mais resiliência dos envolvidos. Diante disso, chegamos à conclusão de que de janelas diferentes se veem situações também de uma forma diferente.

Em alguns casos, pais limitam a duas ou três opções as escolhas de seus filhos. Em outros, pessoas são direcionadas de forma incisiva para apenas uma opção e embora, quando conseguem perceber, acreditem que haja outras possibilidades não se veem mais com acesso a essas novas escolhas. Ainda podemos citar a rotina do trabalho e suas particularidades que solicitam alterações sem aviso antecipado e sem possibilitar plano B. Há uma janela de entendimento que afirma que quanto mais participativa for a decisão mais engajamento haverá dos envolvidos; é uma forma de enxergar.

Tanto é demanda o que não consegue perceber outras possibilidades como o que as enxergam. Desses, alguns buscam auxílio para conseguirem abrir novos caminhos em meio às limitações pessoais ou de seus grupos sociais e o convite que se faz é o de fazer uma releitura da situação a partir da limitação ou abrangência da visão de sua janela.

As terapias de casos individuais, muitas vezes, precisam ter sessões familiares para se atingir o objetivo do cliente, fazendo com que o alvo traçado passe a ser entendido como importante pelos demais. Nada disso é simples, pois exigirá dos participantes alterações em suas rotinas e o modo de enxergar os planos de longo prazo que são os mais difíceis de serem transformados. Como você se sentiria caso alguém dialogasse sobre possíveis alterações na forma como você ver seus objetivos acerca do casamento, na forma como enxerga as decisões de seus filhos ou na visão do seu trabalho?

Nossas janelas foram construídas ao longo dos anos e possuem valores coletivos e singulares, crenças já consolidadas e outras em formação, expectativas e medos, vírgulas e pontos finais. A tarefa exigirá discernimento, desejo e respeito pelo mundo de possibilidades construído também pelo outro.

A situação não é fácil, mas quem deseja entender a forma como a outra pessoa enxerga deverá se esforçar para ver também a partir de outra janela e compreender mais sobre o assunto. Também é opção abrir as cortinas por completo sem receio do sol que invadirá o ambiente ou deixar, em dias de tempestades, a chuva passar para poder enxergar melhor os detalhes. Se necessário, limpar as vidraças com uma periodicidade maior seja essencial para quem deseja ver melhor. Isso serve para quem já enxerga como para quem ainda não vislumbra outras possibilidades porque nem todos os que afirmam enxergarem algo além são progressistas e nem todos os que não conseguem ver são conservadores.  Se colocar mesmo que momentaneamente na mesma janela em que esse outro estar, respeitando sua construção social ao invés de simplesmente negar que existem outras formas de pensar, é um ótimo caminho para a empatia.

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