Abraços imperfeitos

Foi difícil enfrentar a situação porque aquele comportamento não era esperado. Afinal, amigos de verdade não erram e amizades devem ser entendidas como relacionamento. Agir daquela forma foi uma grande desconsideração e a partir de agora, a ideia é que as coisas mudem, disse o amigo ofendido.

Resultados menores aos esperados nos fazem parecer improdutivos e, por fim, incapazes diante de metas estipuladas pelas outras pessoas. Quando alguém não atende as expectativas o mudamos de posição na nossa régua do relacionamento. Na frente, sempre estarão os que acertam, os que primeiro se mostram, os que estão por perto e dão sinais claros de apreço. Assim, a lista de exigências para compor nossos laços de amizade tende a continuar aumentando. Às vezes, parece conto de fada, mas é a vida real. Idealizamos a perfeição nos comportamentos das pessoas e quando não atendem são convidadas a se afastarem do nosso mundo onde não se pode ultrapassar a escala mínima de erro estipulada. Para os que ultrapassam o limite, o indicativo é de suicídio do relacionamento. As expectativas sobre os relacionamentos nos chamam ao contexto criado da responsabilidade pelo alcance do ideal e corresponder a esse conceito é a receita pregada nas paredes da cidade da perfeição que criamos.

Analise sua lista de exigências para os relacionamentos. O que podem e o que não podem fazer os que desejam estar por perto? Agora, responda se você consegue cumprir em sua totalidade.

Para os que responderão sim, imagina-se o enorme esforço que alguém precisa fazer para se adequar ao mundo idealizado. Enfeitamos os relacionamentos como se fossemos pessoas divinas e o contrário de lutar pelo desafio do ideal é entendido como acomodação, por isso a aversão ao comportamento menor que o esperado. Ninguém deseja ser visto como o acomodado da situação.

Mas quando será que a falha das pessoas nos relacionamentos virou sinônimo de acomodação? Não sei. Já nasci em berço que vivia a busca da perfeição. A mim, coube a reprodução do comportamento. Mas me parece que é algo gerado pelo desejo frenético, que é cultural, do tão sonhado alcance do suposto mundo perfeito levado tão a sério pelos gurus que agitam os mercados em todos os seguimentos da sociedade. Em todos os espaços, parece que a perfeição é o ápice. Cabe a reflexão sobre qual e de quem é o conceito da referida perfeição. Se em todos os cenários é assim e como reproduzimos mais do que criamos, então na esfera relacional não seria diferente. Dizem que tudo é possível, que o que quisermos é plenamente alcançável e que a determinação de metas nos garante o resultado excelente. Nem sempre, pois tão certo como metas são importantes é reconhecer a relevância do desenvolvimento sabendo que as pessoas não nascem prontas. Não existe tentativa de flexibilizar a necessidade da organização nos processos sejam eles quais forem, mas o que se sabe é que no caminho para a sonhada perfeição há abalos, percalços e desamores.

Se seguirmos todas as orientações que os renomados escritores nos vendem, se fizermos todos os cursos exigidos e nos reunirmos com os ditos mais sábios naquela área do conhecimento, conseguiremos alcançar a perfeição? Se fizermos tudo o que os relacionamentos ideais propõem poderemos descansar satisfatoriamente sob a certeza do dever cumprido ao qual somos apresentados? Se seguirmos a lista das exigências dos relacionamentos descobriremos a civilização perfeita? Ou será que já é hora de reconhecermos que somos pessoas diferentes e, por isso, a sonhada perfeição será diferente também em cada um de nós. Por que quando erramos, muitas vezes, nos defendemos dizendo que o causa do erro foi o comportamento do outro, numa tentativa de esclarecer que eu sou o exemplo de perfeição?

Abraço

Esse é o cenário ao sermos lançados no campo de batalha dos relacionamentos. Na busca por aquilo que idealizamos, nos esquecemos de perguntar a opinião do outro. A ele, cabe o convite para habitar no nosso mundo desde que não sugira alterações. É como se tivéssemos a certeza que fácil fosse suprir as necessidades de outrem. Não é. Esquecemo-nos que problemas existem no caminho para o amadurecimento, que difere de perfeição, e também na busca diária pelo fazer melhor. Esquecemos que as pessoas tem o direito de agir diferente do que eu gostaria, simplesmente, porque eu também poderei agir assim sem a necessidade de ninguém me excluir de sua lista de convívio.

Não há proposta de se conviver com erros sem que existam reflexões sobre as posturas, porém se propõe a liberdade do outro existir sem a necessidade de se adequar às minhas características. Na verdade, propõe-se que não excluamos os abraços imperfeitos por que, apesar dos erros, estão ali para tentar cumprir sua difícil missão e que, inclusive, podem nos perdoar pela arrogância de afirmar que não erramos.

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