O prefeito Sadiq Khan, após o último atentado ocorrido nos entornos do Parlamento onde 4 pessoas morreram, disse que Londres sempre será uma cidade para todos e que os variados estilos sempre serão acolhidos e bem vindos. Ele, que é de origem muçulmana, reforçou que as cidades e países precisam se respeitar mutualmente e que os mais radicais em seus pensamentos precisam aprender a coexistir com os demais. Tudo isso se deve ao fato de que o atentado, aparentemente, possui relação com os anteriores ocorridos na França e nos Estados Unidos, mesmo sendo londrino o causador dessa confusão.
O debate é longo e complexo. Mas não desejo discutir a crise migratória nem a política atual adotada pelo presidente Donald Trump no início de seu mandato e que foi bandeira de campanha. Também não é a intenção detalhar as causas dos atentados e se há relação com o BREXIT, nome dado ao movimento de saída da Inglaterra da União Europeia, muito menos ao FREXIT que está se aproximando para tornar a França livre dos acordos europeus. Quero fazer diferente e mudar o foco, mas sem alterar o assunto nem diminuir a importância dos demais temas. Nesse alvoroço das nações, quero falar sobre os nossos papéis na sociedade e contribuir para a discussão.

Ao levantar pela manhã, as responsabilidades também se levantam conosco. Sou marido, pai, funcionário em alguma empresa, amigo, irmão, primo, filho, etc. A depender do lugar, assumo um papel necessário ao momento. Ou seja, embora sempre todas as responsabilidades me acompanhem, há momentos em que algumas devem se sobressair. Quando estou no trabalho, precisarei ser aquele funcionário que está contribuindo para a empresa; quando com meus pais, o papel preponderante a ser exercido é o de filho embora ao atender o celular na mesma ocasião, precise automaticamente me tornar o esposo para responder algumas demandas trazidas pela companheira ao telefone e assim por diante.
Tenho duas reflexões a fazer sobre nossa atuação nos vários cenários na sociedade:
- Qual o percentual nesses papéis em que realmente demonstramos o que somos de verdade em nossa essência? O quanto de mim, o eu verdadeiro, é mascarado quando estou sendo irmão? E quando estou sendo filho?
- Sabendo que há muitos papéis, será que há alguma posição comum a todos os mais de 7 bilhões de pessoas no mundo?
Quanto à primeira pergunta, enxergo nitidamente que muitos papéis estão desconectados daquilo que realmente somos. Longe de querer encontrar culpados para isso, apenas direi que os espaços têm forçado comportamentos e, para isso, as pessoas tem entendido como inevitável a adequação para a permanência. Isso não é inteiramente ruim, mas com certeza é o que tem contribuído para a fixação de muitos papéis que nos convidam a termos posicionamentos tão diferentes a depender do ambiente em que estamos. Mas há uma oportunidade comum onde todos podem se encontrar e é o foco desse texto e explicarei na responda para a segunda pergunta.
Por trás de todo papel, sejam os ditos de direita ou o de esquerda, há sempre alguém com desejo de dias melhores para a população. Mesmo com teorias diferentes, mas por trás de cada professor há o desejo de que as pessoas aprendam e se desenvolvam. Até diante do ápice da tristeza, o dolorido de coração deseja que a vida seja melhor para todos e não somente para si. É nesse lugar que antecede os papéis sociais aonde podemos nos encontrar. O íntimo e nossa essência de ser humano nos aproxima mais do que nos distancia.
É urgente a reflexão: conversarmos mais com as pessoas ou com os seus papéis? Um político que dialoga com eleitores, dentro dos conceitos atuais brasileiros de dádiva e divida na política, jamais encontrará solução para as crises, pois não se pensa na essência das vidas das pessoas. Quando uma esposa diz para o esposo que o almoço que ele fez não está bom é preciso entender que a matriarca está falando com o papel de cozinheiro e não com o papel de esposo e esse entendimento é fundamental para não se criar uma crise entre os papéis de casal. Geralmente, quando um pai nega o pedido do filho há discórdia na família, mas é preciso que o patriarca entenda que a raiva é entre os papéis filho-pai, mas que para além dessas funções sociais há a essência das pessoas que precisam ser preservadas em respeito. Sempre que o gestor for nortear os serviços dos colaboradores será necessária reflexão de que ele não está lidando simplesmente com o papel de funcionário daquelas pessoas, mas com a essência delas e isso será fundamental para que a empresa não ultrapasse o limite do respeito para não cobrar o que não convém. Sempre que falarmos com alguém é importante ir além daquele papel que estamos enxergando e lembrar que estamos, na verdade, frente a frente com outro alguém que, tão certo como eu, merece dignidade. Por exemplo, suponha que a relação fazendeiro-escravo, tão forte nos tempos coloniais do Brasil, fosse analisada pelo proprietário da terra naquele tempo. Imagine que se ao invés do senhor da fazenda ter enxergado apenas o papel de escravo daquelas pessoas que ainda tivesse analisado a essência da relação de respeito que sempre deveria ter existido entre as pessoas e pensasse que para além do papel de escravo, tão certo como ele, elas também mereciam respeito. O que aconteceria se as relações fossem de pessoa para pessoa ao invés de ser de papel para papel social? Será que a relação desumana que é o regime escravista teria resistido por tanto tempo?
Quando ouvi o prefeito de Londres falar sobre estar receptivo a todas as pessoas do mundo mesmo após sofrer mais um atentado, entendi plenamente o peso politico da fala, mas decidi analisar seu tom para além do seu papel de administrador de uma das maiores megalópoles do mundo. Li seu discurso como alguém que está olhando para além dos papéis. Entendi que está falando para todos os tipos de pessoas, inclusive para inescrupulosos bandidos que possam pensar em morar em sua cidade e dizendo: quero falar com a sua essência e não com o papel que você desejou seguir, quero falar com o seu íntimo que é o lugar aonde podemos nos encontrar e dizer que você é bem vindo para viver entre nós para além dos papéis e com isso nos encontrarmos em uma relação de ser humano.
Se não nos encontrarmos nos discursos dos papéis que decidimos morrer por eles que ao menos nos encontremos na essência, dentro de cada um de nós, que busca o respeito mútuo. Seja qual for o papel que você decida viver lembre-se que antes dele há um que jamais deveríamos rejeitar que é o de ser humano. É nesse endereço que todos nós podemos nos encontrar para tomar um café e viver melhor.
Por Londres, Paris, Nova Iorque e por todos nós.