Saudade

Sinto falta de muitas situações que não conheço.

Você pode até perguntar como pode alguém ser saudoso de algo que não viveu, mas é isso mesmo: sinto saudade de realidades antigas.

saudade

Sinto falta do tempo do qual os meus pais relatam que a palavra de todos era ouvida como verdadeira. Sinto falta do tempo vivido por poucos e relatado por muitos aonde não se esperava outra resposta a não ser a verdade. Quão saudosos são os dias onde a preocupação com o bem estar do próximo era uma realidade diária e em meio ao cuidado com o outro éramos cuidados também. Mas isso foi antes de nos tornarmos ambiciosos pelo primeiro lugar. Isso aconteceu antes de desejarmos que tudo gire em nossa volta e antes ainda de desejarmos tamanha visibilidade em detrimento dos demais. Tudo isso acontecia quando honrávamos nossos votos, quando comprávamos o que podíamos pagar, quando os pais eram nossas referências maiores, quando os amigos estavam por perto por desejar tão somente estar por perto; nada mais.

Naquele tempo, o desejo de crescer ainda não era singular, mas plural, ou seja, “eu te levo comigo”. Sabendo que a corrupção sempre existiu, me resumo a falar sobre a simplicidade da vida de quem tinha caráter para ensinar, tanto naquele como hoje caso ainda estivessem por aqui.

Sinto falta do tempo que não cheguei a conhecer aonde adoecíamos menos devido relacionamentos mal resolvidos e dessa forma tínhamos mais vida para compartilhar. Sinto falta do sorriso que sorrir por que deseja e não por precisar manter a forma adotada pela maioria. Que falta sinto do tempo que as pessoas eram mais o que desejavam ser do que o que é imposto. E nessa dança, somos enganados ao pensar que fazemos escolhas por vontade própria.

Que saudade do tempo aonde as mídias sociais e os aparelhos modernos não preenchiam o desejo da companhia das pessoas e nos esforçávamos para estar frente a frente. Que falta do tempo aonde a causa era muito importante e por ela lutávamos. Mas isso foi antes de nossa vida virar nossa causa e somente por nós lutarmos.

Que saudade do tempo onde o pedinte, as crianças nas ruas e as famílias limpando os carros no trânsito não eram parte da paisagem. Que falta de quando isso me incomodava. Lembro-me de uma noite quando, pela primeira vez, vi uma pessoa dormindo na rua e naquela madrugada não houve cansaço que me fizesse dormir. Que falta daquela preocupação que eu sentia.

Que saudade do futuro onde tudo isso se resolverá! Sinto saudade.

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