Paredes

– Estamos no século XXI, como alguém ainda pode ser assim? Disse a jovem decepcionada.

– Mas foi assim que aprendi. Respondeu a matriarca de forma enfática.

Gosto desse tipo de discussão. Enquanto há o entendimento de um lado de que a passagem do tempo é diretamente proporcional à abertura de inovações, do outro se entende que alguns ensinamentos devem ser mantidos a todo custo. Neste texto não desejo me agrupar a nenhum lado. Apenas gerar maior reflexão.

Ao analisar o diálogo dessa família, geralmente, somos levados a discutir os limites impostos em mundo globalizado aonde as pessoas se deslocam com maior facilidade e liberdade. Nesse contexto, corriqueiramente, entendemos que a mãe precisa rever sua posição já que o mundo é outro daquele em que viveu. Na verdade, o que queremos dizer é que as pessoas precisam rever suas paredes que estão barrando algo desnecessariamente já que o tempo está passando.

É certo: construímos paredes a todo instante. Algumas delas suportam até as mais violentas tempestades e continuam firmes, fortes, intactas. Outras cedem com maior facilidade e somos capazes de desconstruir para construir mais à frente, dando mais espaço e permitindo algo que antes seria impensável. Somos construtores de paredes e ninguém jamais poderá abandonar essa atividade. Está do lado de dentro. Nasce e morre conosco.

parede

Porém gostaria de abordar, ao invés das paredes construídas pela mãe nesse caso, as paredes construídas pela jovem porque essa parte sempre é menos discutida. É notório no exemplo que a mãe possui paredes enquanto entende-se, erroneamente, que a filha possui seus caminhos sempre livres. Na verdade, todas as pessoas possuem suas paredes e as suas instalações estão mais ligadas ao desejo próprio do que aos coletivos. Há quem pregue a desconstrução de paredes, mas nunca de todas. Todos possuem suas paredes mais chegadas, mais queridas e as tornam indestrutíveis. Enquanto uns lutam pela derrubada de muitas, há aquelas que lutam para que não caiam. A vida é assim. Cada um com suas causas, suas lutas e suas construções. Há quem passe o dia construindo e há quem passe o dia derrubando paredes. Para alguns assuntos há muitas dúvidas acerca de qual a melhor atividade: construir ou derrubar?

É possível que nenhum seja mais certo do que o outro; apenas decidiram ver os assuntos da vida a partir de óticas diferentes. Inclusive é possível que depois de um tempo, as pessoas que defendem paredes em lugares diferentes cheguem ao consenso de que a construção sempre devesse ter sido em um único lugar.

Para um mundo melhor, cabe à reflexão: Nossas paredes têm atrapalhado a visão, o passeio e a vida das pessoas? Seja você um construtor ou um derrubador de paredes, sua atividade tem feito mais sorrisos ou lágrimas?

Disse Zygmunt Bauman no livro Modernidade líquida: Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas.

Continuemos nossas construções e derrubadas de paredes pelo bem comum.

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