A sociedade brasileira anseia por heróis nas instituições públicas e privadas; não um anseio natural, mas o anseio que foi ensinado.
Ensinaram que a sociedade se divide em pessoas comuns e heróis. Esses são inteligentes, terão acesso e assumirão instâncias superiores enquanto aqueles formarão a base e servirão de apoio. Comuns são os leitores e empregados, heróis são os políticos e gestores. A divisão acontece naturalmente quando uma parcela não é capacitada no fazer enquanto a outra se encontra com as facilidades que o prepararão. Fruto da individualização e da desigualdade, a fulanização está presente no meio privado e no público e se choca diretamente com os benefícios da gestão participativa, tão ausente na rotina dos brasileiros.
Das dificuldades corriqueiras até as crises, as instituições tem tido mais pessoas motivadas do que comprometidas. A diferença é simples: enquanto motivação é gerada por anseios muito mais internos e individuais, o comprometimento nos faz pensar também no externo e por ele se engajar. Em um mundo individual, a fulanização tende a aumentar.
Converse com algum trabalhador e pergunte sobre bons projetos em sua organização. Depois, indague quem está por trás dessas oportunidades. Se a resposta contemplar um grupo envolvendo direção e colaboradores, então a empresa possui muitas chances de ser um lugar participativo. Caso contrário, se a resposta indicar apenas uma pessoa, então é possível que o lugar trabalhe mais com a ideia de que um indivíduo é suficiente para resolver todas as coisas enquanto as demais são vistas como “mão-de-obra”, fulanizando as conquistas.
No cenário político, a individualização é um processo elaborado propositalmente para que, oportunamente, as pessoas se lembrem de um nome ou grupo seleto e a iniciativa privada, de igual modo, a fulanização acontece como forma de consolidar espaço e manutenção de poder.

De tão natural parece inofensivo, porém é preciso diferenciar aquilo que de tanto se repetir o fizemos ser natural e lembrar de que não é por ser corriqueiro que algo se torna bom e, muitas vezes, está longe de ser justo. É o caso. De tão corriqueiro, fizemos da gestão mandatória algo natural e, apesar do desejo de mudar, preferimos tolerar. Por quê? Porque não somos instruídos à mobilização que nos ensinaram que era coisa de relaxados. Preferimos essa versão. Porque nos instruíram mais aos deveres do que aos direitos. Preferimos acreditar neles. Porque nos deram uma democracia, mas não se preocuparam em nos ensinar a entendê-la. Preferimos confiar neles.
Conquistas sociais são da sociedade, mas insistimos em acreditar que devemos fulanizar dizendo que “graças a fulano”, isso ou aquilo melhorou. Esse exemplo é clássico no Brasil onde o povo não é ensinado sobre seu real poder dentro de uma democracia por causa do desejo da manutenção do poder através de uma forma errada de fazer política.
Espaços menos abertos à opinião se tornam melhores para pessoas individualistas enquanto o contrário é almejado por quem acredita que opinando pode auxiliar na condução dos processos. A diferença é que gestores amantes dos processos que fulanizam preferem atrair pra si as glórias das feituras das ações ao invés de dividir os feitos com sua equipe. Esses gestores muitas vezes possuem suas demandas aumentadas sob reanálise de contrato enquanto a equipe sofrerá o aumento das obrigações, mas sem reanálise contratual. A fulanização é tão prejudicial que as equipes, em longo prazo, deixam de serem capacitadas para a melhoria contínua prejudicando os indicadores da organização. Os fluxos dos trabalhos devem sempre ser revisitados para que os processos sejam continuamente melhorados diante das grandes modificações que sofrem com o passar dos anos. A nova geração presente no mercado de trabalho tem tido dificuldade com gestores que mantem esse esquema de gestão. Também é nítido que muitas organizações tem se atualizado para essa nova demanda dos profissionais.
Quanto mais acreditarmos que a fulanização é benéfica maior será a crença em super heróis e deixaremos os processos menos participativos prejudicando carreiras e permitindo que ótimas ideias sejam silenciadas pela falta de abertura.