Era 16h. Como sempre, a pontualidade foi uma de suas características. Saudamo-nos. Solicitei que entrasse.
– Como se sente? Perguntei.
– Estou bem. Esses últimos dias foram corridos, mas cheios de coisas boas.
– Que bom que se sente assim. Vamos ver, então, os resultados da atividade que estipulamos? Onde estão as informações?
Alterando a voz e o semblante para algo que julguei como uma tentativa de demonstrar arrependimento, disse:
– Me perdoe! Eu me esqueci de fazer. Foram dias tão corridos que esqueci de monitorar os dados solicitados.
– Ok. Vamos começar a sessão de hoje conversando sobre o seu esquecimento.
Continuamos a interação.
O caso acima não é de nenhum paciente específico, mas uma mistura daquilo que é comum nos atendimentos: o esquecimento. Não o esquecimento natural, mas o esquecimento da motivação.
Com o desenrolar da sessão, geralmente juntos, psicólogo e o sujeito em análise, se convencem de que não se trata de esquecimento, mas de uma resistência a, de fato, se colocar frente a frente com a situação. Existe o desejo de mudança, senão não sairia de casa nem estaria em um consultório. Porém, por vários fatores, não há motivação para finalizar o processo.
Permita-me ampliar o assunto.
Há quem não reconheça a necessidade de socorrer as regiões norte e nordeste do Brasil quanto aos requisitos mais básicos à dignidade humana? Há quem não se ofenda com aos desvios de recursos listados na Operação Lava Jato? Há quem não reconheça que a educação é o caminho para termos indivíduos mais cidadãos? Caso alguém responda sim para essas perguntas, com certeza, será componente de uma minúscula parte da estatística. E por que não se propõe as respostas necessárias já que a maioria é a favor? A resposta segue a mesma linha de pensamento: porque temos o desejo, mas nos esquecemos da motivação para enfrentar a situação.
Motivação é tudo aquilo pode fazer mover, ou seja, uma teoria da ação. Apesar de não somente a isso, mas ela está ligada a engajamento e comprometimento. Este se trata do quanto me disponibilizo em afeto para com minha carreira ou atividade enquanto aquele diz respeito ao nível de identificação com a ação em foco. Geralmente, pessoas motivadas se engajam e são comprometidas. Mas quando não há motivos para isso, inevitavelmente, me faltará o desejo pela motivação. Por esses motivos que a teoria mais aceita é a de que motivação seja algo interno e o externo serve para impulsionar o que se iniciou no interior. É do sujeito. Ou ele quer ou não!
O que a empresa pode oferecer são impulsos, mas é o colaborador que desejará se motivar por aquilo. É quando o casal está em crise e um dos parceiros oferece um impulso, mas caso o outro não deseje não se motivará. É por isso que devemos falar sobre a importância da motivação que é complexa desde o início da formulação de seu conceito até a prática na vida real, pois são multicausais os fatores geradores.

Longe de esgotar o assunto, mas o que deseja praticar a motivação precisa assumir o compromisso com a direção que escolher para que não se desvie, com a prática constante da abordagem do assunto propiciando maior intensidade de contato com a causa e diante das dificuldades que surgirem persistir na manutenção da direção escolhida, recomeçando o ciclo. Durante esse percurso, será importante o auxílio de um profissional de análise que, com referencial bibliográfico e científico, poderá acompanhar o processo de fortalecimento da motivação.
Se motivar para algo está diretamente ligado a desejar que aquilo seja parte do seu dia da forma como sempre foi ou de um olhar de outro prisma. Não estar disponível para enfrentar isso é o que faz, possivelmente, com que “esqueçamos” algumas coisas; até a motivação.
Depois de mais alguns minutos de novas informações, a sessão continuava:
– Sua falta de memória não é um problema para se preocupar por enquanto. Mas é possível que seu esquecimento por desejo de evitar o assunto frente a frente seja. Que tal, antes de continuarmos com o desenvolvimento do monitoramento das incidências daquele comportamento que conversávamos, refletirmos sobre o seu desejo de evitar esse assunto?
Percebi um sorriso assertivo que disse sim, logo em seguida.
Assim, a falta de memória não é o real motivo quando a dificuldade está sendo outra, a distração voluntária devido à resistência de enfrentar a situação. Nesses casos é preciso favorecer a lembrança da motivação com a importância que merece.