É no vazio dos jarros que se põem flores

O que fabrica jarros deve se orgulhar de sua arte. Jarro é uma façanha. Porém, há uma nítida reflexão nesse cenário: no final do seu trabalho, o resultado, apesar de belo, sempre será um objeto vazio. Mas os jarros não foram feitos para viver vazios e sozinhos. Sua estrutura grita por algo, por água, por terra, por planta.

Nesse ambiente, antes de manter um relacionamento, o jarro precisa de um tempo para se organizar e fortalezar sua estrutura, se tornar resistente às intempéries e, assim, está mais disponível ao futuro. Seu vazio deve ser temporário, mas entendido como necessário para o amadurecimento. No final, aquela solidão se encontrará com algo do seu tamanho que preencherá todos os seus espaços por completo.

O mesmo acontece conosco. Somo como jarros feitos para receber flores. É possível que a nossa opção seja pela vida desacompanhada, mas nunca vazia. Isso difere daquilo. É inerente ao seu humano um vazio que necessariamente buscará preencher seja com a companhia de alguém, com uma atividade que julga prazerosa ou com os dois. Porém, tratamos aqui o tempo do “vazio” como algo que possui sua importância, pois gera aprendizado. Aliás, na verdade, nunca somos totalmente vazios. É neste tempo de aparente solidão em que nos acometemos de profunda reflexão sobre quem somos e o que queremos e nos formamos para enfrentar o futuro que nem sempre foi traçado em sua totalidade por nós.

vaso

Culturalmente, aprendemos que “vazio” não combina com felicidade e o associamos a algo ruim. Mas não. Seja qual for o campo de atuação, estar vazio ou sozinho deveria fazer parte de um processo entendido como saudável para o aprendizado, pois gera maior maturidade no poder de decisão. Mesmo depois da invenção dos jarros chamados solitárias, o mundo ainda carece de entender a necessidade da autorreflexão que não precisa ser feitas apenas em jardins. Mas, quando maduro, se desperta voluntariamente e sai da aparente solidão para uma vida mais atuante e sabedora de seus ideais na coletividade.

Dentro de cada um de nós há vazios para serem preenchidos. Às vezes não é fácil afirmar de qual vazio estamos sendo alimentados. No mundo agitado que ficou conturbado há a exigência da pressa. Porém, antes de sair de casa, precisamos saber se a aventura que iremos nos dispor a enfrentar suprirá o nosso vazio. Eis a importância da análise e reflexão interna antes de abraçar o coletivo. Há pessoas que desejam escrever e outras pintar. Há ainda quem deseje gerir pessoas e processos enquanto outras querem ser aviadoras. Alguns decidem ir para as ciências exatas, outras fazer ateliê. Dentro de você, qual vazio está ansioso para ser alimentado?

Diz o ditado oriental que é no vazio dos jarros que se põem flores. Sabendo mais sobre o seu vazio, escolha a flor, mas não qualquer uma. Precisa ser tal qual uma luva que só serve à mão. Se você sabe sobre o seu vazio terá de escolher a flor que preencherá o seu espaço. São muitas as opções, mas escolha a que encherá todos os seus recintos e o manterá com desejo de regá-la por todos os dias da sua vida.

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