Documentalmente, 13 anos de idade. Sendo um dos líderes da Comissão de Organização da festa de conclusão do curso, eleito de forma democrática, promovemos um debate acerca de como organizar o fluxo das decisões. A reunião começara. Todos opinavam. Ânimos exaltados, pensamentos do norte e do sul alimentavam a noite. Falem, se expressem, digam o que pensam, vote, falava a mediadora. O espaço era uma declaração de amor à liberdade de posicionamento. Mas não demorou muito. O gestor da escola chegou e disse: “Já que vocês demoram tanto a decidir, a determinação será essa e pronto!”. Retrucamos e alertamos que a decisão seria tomada até o final da reunião, mas que seria importante todos falarem. Não adiantou. Pensávamos que estávamos decidindo quando a decisão já estava posta por terceiros. Foi dia triste.
– Não é possível ser assim e nem justo. Foi minha argumentação por horas junto aos colegas.
– As coisas não deveriam ser assim, mas são. Foi a informação de quem desejava acalentar.
É íntima a relação brasileira com a subserviência.
O Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir a relação escravista, mas esse sentimento de submissão depreciativa em relação ao outro ainda é muito forte; fruto presente e gritante da desigualdade social. Quanto mais as pessoas estiverem precisando lutar pela sua subsistência diária menos tempo terão para se apropriarem dos benefícios do sistema democrático e galgarem ascensão posicional com embasamento. Nessa lógica, diante das escolhas necessárias para a sobrevivência, a escolha será pela labuta do pão de cada dia ao invés de contribuir satisfatoriamente para o debate do contexto político em que vivemos. Não há tempo para contribuir com a segunda opção; a prioridade é clara.
Em todos os espaços na nossa sociedade existe a ideia social democrática de liberdade da fala e do posicionamento favorável ou contrário, mas na prática as instituições públicas e privadas, em muitos casos, inibem esse recurso e as pessoas, carregadas de histórico social, se anulam possibilitando que poucos decidam pela maioria sem grandes questionamentos. De novo, a necessidade e carência de emprego gerada pela desigualdade social nos fará decidir pela omissão.

Imagem disponível em http://migre.me/vHjsq em 10/12 às 14h.
Na escola, aprendemos que os mais interessados se sentam nas primeiras filas e, geralmente, estão calados observando e aprendendo. Nos últimos lugares, residem os que muitos falam e os causadores da desconcentração dos mestres. Ao ensinar essa aberração, garantimos a existência de alunos desinteressados visto que nunca conseguirão todos se sentarem nas primeiras carteiras. Ou seja, se existem os primeiros então sempre existirão os últimos. As últimas filas sempre existirão dentro do formato padrão e consequentemente, sempre existirão os alunos que não possuem interesse se analisamos por essa lógica. Logo, para solucionarmos esse problema, além de excluirmos essa ideia bizarra acerca de atrelarmos interesse a posição geográfica nas salas de aula, devemos alterar urgentemente a forma padrão adotada pela maior parte das escolas de estruturar seus espaços com pessoas à frente e outras atrás. Todos os alunos devem se ver para que o diálogo seja insistentemente desejado, inclusive. A ideia de que o calado é bom e o que fala “de mais” é ruim tem mais a ver com o desejo de controle do que com política de desenvolvimento humano. A escola não deveria ser um lugar de formação de subservientes.
Fala-se muito sobre um “apagão de talentos” nos últimos anos. Ora, em um país de massa subserviente, a população se receia de se colocar à disposição para grandes responsabilidades. Sobre isso, é preciso analisar se estamos no ritmo natural da democracia onde as pessoas ainda estão amadurecendo para assumir posições ou se estamos sendo alvos de uma política regressiva de quem deseja perpetuar o seu poder, seja qual for o cenário, utilizando-se da subserviência e vitimização das pessoas.
Não se deseja propagar a rebeldia contra os sistemas que contribuem para a democracia. Apenas contra os sistemas de opressão que jamais deveriam ter existido. Essa é uma luta que promove justiça e nos solicita maior empenho. Se formos apenas subservientes sem possibilidade de opinar, então não há liberdade de expressão e a democracia é demagoga.
É responsabilidade de todos, quando em uma posição de gestão garantir a sustentabilidade da democracia nos mais variados contextos, possibilitando a aproximação dos contrários para o debate sensato e inteligente, fazendo com que todas as pessoas passem a se posicionar de forma eficaz e independente. É responsabilidade do povo a de fazer com que os gestores não se esqueçam dessa missão primordial seja nas escolas, nas empresas, nas comunidades de fé e nos grupos sociais.
Essa discussão vai além da relação singular escola-aluno, filho-pais, empregado-empregador, povo-governo, pois fala mais do que de benefícios específicos. É mais do que bondade, trata-se de Direitos Humanos.
Tenho medo do dia em que o povo enxergará sua soberania. Mas como o medo é necessário à sobrevivência, desejo que esse dia chegue com brevidade.
À noite, passadas as lamúrias junto aos colegas, fui para casa e a argumentação continuou por horas junto aos meus familiares:
– Como é possível que alguém decida algo sozinho se a construção deveria ser coletiva?
– Meu filho, ninguém jamais pode calar em nós a verdade que acreditamos. Se você não puder falar, escreva. Mas faça as pessoas terem acesso ao que você acredita ser importante.
Foi a informação que recebi.