O destrato do pronome

De onde estavam, vieram juntos ao café. Como nunca, o céu do centro do Brasil favorecia o passeio quando o carro de luxo, comum na região, chegou ao destino.

– Obrigado por abrir a porta. Agradeceu o primeiro passageiro de 35 anos de idade.

– De nada, Vossa Excelência. Respondeu satisfeito o motorista.

– Obrigado. Agradeceu o outro passageiro também de 35 anos de idade.

– De nada, Vossa Excelência. Respondeu satisfeito novamente.

Saíram, entraram e se sentaram à mesa de sempre.

– Sejam muito bem vindos mais uma vez. Vossas Excelências desejam realizar o pedido, agora? Disse o garçom, devidamente uniformizado com sapatos espelhados, paletó e colete pretos, camisa manga longa branca com detalhes sofisticados perceptíveis até aos distraídos.

– Sim, por favor, você pode me trazer o de sempre. Falou o passageiro que usava terno cinza com camisa manga longa de botoeiras prateadas e sapatos pretos espelhados.

– E para mim, o de sempre, por favor. Completou rapidamente o seu companheiro de café e de diálogo das quartas feiras que vestia terno preto, camisa manga longa azul esbranquiçada com botoeiras duplas com detalhes em preto e prata e sapatos pretos espelhados.

– Fiquem à vontade, o pedido será trazido em instantes, disse o garçom.

Os dois colegas continuaram a conversa do caminho:

– Como eu dizia no carro, agora pouco: Isso não procede, Vossa Excelência!

– Por favor, me chame de você, como já pedi.

– Como desejar, mas você não tem razão.

– Penso que tenho. Os pronomes de tratamento no Brasil são usados de forma política.

– Quero provas de sua afirmação, retrucou, mas mantendo a gentileza nas palavras.

– Pois não. Tratamos as pessoas de acordo com seus cargos; muitas vezes, simplesmente, pela vestimenta com a qual se apresenta, pois imaginamos as potenciais posições sociais que aquela pessoa possa ser responsável a partir da roupa que usa. Ou seja, quanto mais bem vestido, mais diferenciado será o tratamento porque imaginamos possuir cargo relevante, visto que, culturalmente, entendemos que há funções mais importantes do que outras. O código moral dos pronomes de tratamento é politizado. Chamamos de “você” o porteiro, o jornaleiro e o cozinheiro, independente de sua idade, mas nos é solicitado chamar o rei de “Vossa Majestade”, também independente de sua idade. A posição diferenciará, diz o ritual.

Essa conversa começou com o intuito de discutir sobre o uso dos pronomes de tratamento que são palavras e expressões que substituem o substantivo, tendo a finalidade de indicar a pessoa sem utilizar o seu nome. Essa forma de comunicação possibilita o relacionamento usando essas mesmas palavras e expressões de acordo com a posição ocupada pela pessoa na sociedade. Por exemplo, “Vossa Alteza” é para príncipes, “Vossa Magnificência” para reitores de universidades e “Vossa Senhoria” para tratamento geral em cerimônias. Inclusive, o pronome de tratamento exige uma uniformidade, ou seja, quando escrevemos ou nos dirigimos a alguém, não é permitido mudar, ao longo do texto, a forma do tratamento escolhida inicialmente. Sendo assim, se começamos a chamar alguém de “Vossa Excelência” precisaremos concluir o diálogo utilizando o mesmo pronome, diz o rito. Mas voltemos e ouçamos a conversa dos colegas:

– Mas isso é uma convenção social, Vossa Excelência, e por isso, natural entre as pessoas.

– Por favor, me chame de você, insisto. Eis um grande problema: confundimos aquilo que é cultural com o natural, social com político. A língua portuguesa nos direciona a separar os pronomes pelos cargos: “Vossa Alteza” é para príncipes e “Vossa Magnificência” para reitores. Porém, o que não percebemos é que por mais social que isso tenha se tornado, o transformamos em ato politico privilegiando umas expressões como melhores do que outras. “Vossa Majestade” é entendida como mais importante do que a palavra “você” e, sendo isso verdade, adotamos a lógica de que as pessoas que chamamos “Vossa Majestade” são mais importantes do que as que chamamos “Você”. O social se tornou político pela necessidade pessoal do holofote, mas o político, neste aspecto, nunca será socialmente justo porque perpetua a segregação das pessoas, favorecendo desigualdades neste assunto. Por fim, nada disso jamais será natural porque, para isso, é necessário o respeito para todos em detrimento do cargo ou posição que ocupe na sociedade.

– Interessante. Continue.

paparazzi

Foto disponível no em http://migre.me/vGjzp em 08 de dezembro de 2016 às 12h30.

– Observe: Aproxime sua imaginação de uma comunidade carente, financeiramente falando. Olhe as casas de filipetas e os esgotos ao céu aberto. Olhe à frente e veja quem está vindo: um homem com sua criança de 3 anos, ambos vestidos de forma básica. Converse com ele. Qual pronome Vossa Excelência usará para falar com o pai da família? Provavelmente, “você”, pois antes de o tratarmos como igual buscamos mentalmente o rito de associar o tratamento à posição social. Logo, pelas condições sociais da realidade da comunidade, que historicamente é desfavorecida, o pronome será de escala menor. Agora, proponho outra análise: Se veja na avenida principal da sua cidade. Isso, essa mesma! Entre naquela galeria e veja quantos negócios existem naquele imenso corredor. Bata na porta daquele consultório. Se assente com o médico, vestido de branco, e dialogue. Qual expressão Vossa Excelência usará para falar com esse profissional? Provavelmente, doutor. Em ambos os casos, insistimos em, de forma cultural e política, distinguir as pessoas pelas posições que ocupam na sociedade. Vale salientar que doutor é um título, um substantivo, podendo ser usado neste caso, mas que culturalmente foi transformado em um pronome de tratamento para reforçar grupos que exigem destaque. Há de ser falsa a ideia de considerar os pronomes de tratamento como necessários para manifestar respeito. Os cargos no Parlamento em uma democracia, por exemplo, são possibilitados pelo povo e nenhum deles representa autoridade sobre as pessoas, mas apenas responsabilidade pelo cumprimento da Lei no setor específico da autoridade respectiva. Agora, quando a autoridade pública tende a impor sua soberania por meio da força, o medo é, com certeza, um fator no inconsciente coletivo que leva ao excesso de frases e cumprimentos surreais em que a subserviência é uma defesa escolhida pelo vulnerável. Nos dias atuais, onde existe justiça verdadeira, o tratamento não enfrenta nenhum obstáculo e a cordialidade pode dispensar perfeitamente estas formas fantasiosas e ultrapassadas de tratamento com origem nos círculos da tirania por direito divino e nos meios oficiais corruptos que insistem no reconhecimento de grandeza.

– Entendo. Mas me responda; isso se dá apenas na relação pobre e rico?

– De forma nenhuma. A demanda é maior do que pensamos. A questão alcança as discussões sobre cor, gênero, crença e outras mais, além da situação econômica, favorecendo o preconceito camuflado, mas penoso e que tende a aumentar. Por esse motivo, seria elegante que os que chegaram ao patamar de receberem pronomes diferenciados que, humildemente, desejassem a igualdade ao invés de reforçar a segregação. Parece simples, mas são de coisas simples e aparentemente inofensivas que cultivamos os abismos sociais no Brasil. Inclusive não se menospreza as conquistas de ninguém, advindas de lutas e estudos, mas a meritocracia tem sido socialmente injusta e, sendo assim, não há do que se vangloriar.

– Esse assunto merece reflexão, Vossa Excelên… Perdão, você me fez pensar um pouco mais sobre o tema. Mas vamos embora porque a sessão já irá começar.

Ambos quitaram seus débitos no Café e foram para o carro.

– Obrigado, disse um deles para o motorista que abriu a porta do carro.

– De nada, Vossa Excelência, respondeu o empregado.

– Espere um pouco, disse o passageiro que acabara de se acomodar. Qual o seu nome?

– Meu nome é Fernando, Vossa Excelência.

– Ok. A partir de hoje, me chame apenas de senhor.

– Sim, senhor. Respondeu o motorista que vestia terno preto alinhado, camisa marfim, sapatos pretos ralos e que tinha 35 anos de idade.

– Eu agradeço por isso, senhor Fernando. Agora, podemos ir. Vamos porque hoje a aula exige prática. Vamos voltar para a Casa do Povo.

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