Parece difícil de acreditar, mas é verdade. Super-heróis não existem.
Quando crianças, as máscaras e as capas nos dão superpoderes, dominamos o mundo e destruímos os que nos afrontam. Na verdade não precisamos de motivos para sustentar as espadas e atuar contra as feras. Somos bons e eles maus.

Na adolescência, percebemos que muito do que aprendemos sempre esteve associado a fantasias cósmicas, pessoas e poderes inexistentes. Alguns pais tem mais cautela e revelam aos poucos que o Capitão Gancho era brincadeira, o Papai Noel era de mentira e que jamais encontraremos um Saci na selva nem lugar algum. Que trágico! Alguns de nós resistimos a essas informações e mantemos acessa a esperança dos habitantes da Caverna do Dragão encontrarem o caminho para casa. Afinal, foram muitos episódios desejando isso e é impossível alguém jogar tudo fora de uma hora pra outra. Passamos a entender que aqueles nomes que sobem na tela no final dos desenhos são equipes que criaram e produziram toda a farsa que nossos pais omitiram. Todos são comparsas e nós, os ingênuos da situação. Não adianta indagar os motivos desse complô porque as razões não são plausíveis. Nunca soube os motivos do porque das equipes se darem a esse papel constrangedor, mas os alegados pelos pais parecem afirmar que tudo está relacionado com manter os filhos em um estado de intensa concentração para que eles consigam realizar outras atividades. A justificativa é um verdadeiro filme de horror; só que real. Tudo no final está em torno de interesses próprios. Eis a vida. Mas não há mais o que fazer. Se os pais não contassem, saberíamos pelo mundo.
Quando adultos, nos agitamos com a responsabilidade cobrada pela sociedade e nos falta o tempo para a imaginação. A realidade é agenda e a imaginação é distração. Restringimos nossos heróis dos tempos infantis ao cinema, as datas comemorativas e as camisas criativas dos heróis. A maturidade é um processo complicado que exige foco e chato porque exige a exclusão, total muitas vezes, da fase anterior e, por isso, temos de liberar espaço no HD para outros assuntos. Assim, percebemos que crescemos e quando rimos, rimos por outras coisas e não mais pelos desenhos. Os dias nos chamam à agenda sempre corrida e não à ficção. Mas será que abandonamos de vez os heróis?
Seja qual for o dia da semana, a busca da ficção é entretenimento usado para nos fazer esquecer o trabalho, os problemas inoportunos e muitas outras coisas e pessoas. Na ficção, nos escondemos de todos, de nós mesmos e voltamos a assumir o rumo da imaginação nos tornando mais uma vez heróis.
É desse cenário que criamos a fantasia de esperar heróis nos mais variados cenários. Na política, esperamos que alguém una todos os atributos inimagináveis para que governe e consiga colocar o país no prumo. Na empresa, aguardamos que surja um gestor capaz de gerir os processos de modo a satisfazer todos os setores, garantindo a realização da missão e valores, satisfazendo empregador e empregados. Na vida amorosa, esperamos um amor inabalável capaz de satisfazer todas as nossas necessidades por toda a vida. A verdade é que mesmo na agitação da vida, carecemos de heróis a todo instante. Geralmente, atribuímos nossas esperanças e desesperanças a frustração com nossos heróis da atualidade. É normal dizer que o nosso gestor não faz gestão e por isso a empresa está falindo. Também ouvimos que o grupo de convivência não consegue novas habilidades por causa disso ou daquilo. Queremos heróis em todos os lugares, mas eles nunca aparecem e quando aparecem os idolatramos como imortais distantes da realidade e com superpoderes quando, na verdade, são pessoas que se desenvolveram para a responsabilidade e assumiram a causa.
Super-heróis não existem. Na vida real, insistimos que alguém do céu apareça para gerar a solução quando, na verdade, a massa está aguardando por nossas mãos que possui a batedeira. Tornamo-nos detectores dos maus e, imaginando sermos bons, pouco se contribui para o sucesso da missão, seja ela qual for, pois preferimos sermos heróis que detectam o caos, mas incapazes de gerir a solução. A força da criança de sair ao quintal e lutar contra o mal sumiu. No máximo, somos os que observam muito bem, mas que agem minimamente frente às oportunidades de melhorias.
É interessante refletir que, seja criança, adolescente ou adulto, sempre nos colocamos como o defensor e, por isso, os “bons” da história cujo intuito é manter a paz no setor, a alegria da casa e ser o detector do comportamento adverso. Você já pensou que tudo o que faz pode estar contribuindo mais para o mal estar do que para o bem comum?
Assuma a responsabilidade de por a mão na massa e pare de esperar por alguém com superpoderes. Faça uso de características que contribuam para a coletividade e auxilie na construção de melhorias ao invés de apenas detectar. Apesar de heróis não existirem, agindo assim, você estará transformando todo o potencial imaginário infantil em ações de qualidade no seu processo de desenvolvimento atual para benefício de todos.
Perdoe seus pais. Siga em frente. Possivelmente, você fará o mesmo com seus filhos. Que a força esteja com você!